
Há marcas administrativas. Há marcas políticas. E há marcas que salvam vidas. O Cabo de Santo Agostinho alcançou, na última semana, 365 dias sem registro de feminicídio. Um ano inteiro sem que uma mulher fosse assassinada por violência de gênero no município. Não é retórica. Não é discurso. É dado oficial. É vida preservada.
Esse compromisso não nasceu agora. Foi assumido ainda em campanha pelo prefeito Lula Cabral, que colocou o combate à violência contra a mulher como prioridade de governo. E, justiça seja feita, não ficou apenas na promessa. O município investiu em ações educativas dentro das escolas, ampliou campanhas de conscientização em eventos públicos, levou informação para bares, restaurantes e áreas litorâneas, ocupando espaços onde historicamente ocorrem situações de vulnerabilidade.
A política pública deixou de ser reativa e passou a ser preventiva. E isso faz toda a diferença.
Outro acerto da gestão foi a escolha da secretária Aline Melo para comandar a pasta. Incansável, presente, firme na bandeira do respeito, da valorização e, acima de tudo, da vida da mulher cabense. Não se constrói resultado dessa magnitude sem liderança comprometida. Política pública não é improviso, é método, é presença e é articulação.
Hoje, apenas Cabo e Recife contam com dois centros de atendimento à mulher, ampliando a rede de proteção e acolhimento. Isso não é detalhe. É estrutura concreta de enfrentamento.
Tão consistente tem sido o trabalho que ultrapassou fronteiras. O Governo de Alagoas implantou, nos polos do carnaval, a chamada “Tenda Lilás”, inspirada nas ações desenvolvidas no Cabo de Santo Agostinho. Quando um município vira referência para outro estado, algo está sendo feito corretamente.
Mas é aqui que o debate precisa subir de nível.
Enquanto o Cabo inspira outros estados, Pernambuco, governado por uma mulher, Raquel Lyra, poderia estar ampliando essa política em parceria com o município. Poderia estar fortalecendo, somando, replicando. Combate à violência contra a mulher não deveria ter cor partidária. Não deveria sofrer interferência de disputa política. É pauta de humanidade.
O silêncio e a ausência de integração estadual não ajudam. A luta precisa ser coletiva. O objetivo deve ser zerar os números de feminicídio não apenas no Cabo, mas em todo Pernambuco. Quando um município apresenta resultado, o correto é transformar isso em política de Estado.
E há ainda outro ponto incômodo: a pequena oposição local, dois ou três vereadores, que, em vez de se unirem à causa, preferem questionar números oficiais da Secretaria de Defesa Social nas redes sociais. Contra dados públicos, não há argumento ideológico que se sustente. Questionar por questionar, sem apresentar projeto, sem propor lei, sem contribuir com robustez institucional à política de proteção, não é fiscalizar. É politizar uma conquista social.
E é preciso dizer com clareza: quando alguém tenta desqualificar uma marca como essa, não está atacando o prefeito. Está se posicionando contra um avanço na proteção das mulheres do Cabo. Está diminuindo uma vitória coletiva.
O que está em jogo não é narrativa. É vida.
365 dias sem feminicídio não significam que o problema acabou. Significam que a política pública está funcionando. Significam que a prevenção chegou antes da tragédia. Significam que mulheres foram protegidas.
O Cabo mostrou que é possível. Agora, que essa marca deixe de ser apenas municipal e se transforme em meta estadual. Porque quando uma mulher vive, toda a sociedade vence.
Por: Uanderson Melo, jornalista, radialista e teólogo



