
O planeta enfrenta uma crise hídrica sem precedentes. Segundo a ONU, 2,2 bilhões de pessoas não têm acesso à água potável segura e 3,5 bilhões vivem sem saneamento básico adequado. No Brasil, 35 milhões de pessoas ainda não têm água tratada e quase 100 milhões vivem sem coleta de esgoto. No município do Cabo de Santo Agostinho–PE, a realidade não é diferente e, na comunidade da Charneca, a insegurança hídrica e o saneamento precário fazem parte do cotidiano.
É justamente nesse cenário que surge uma iniciativa transformadora: o projeto Água Delas, co-realizado pela ONG canadense Waterlution e o Centro das Mulheres do Cabo (CMC) com apoio do Fundo de Inovação e Transformação do Governo do Canadá. O objetivo é claro: fortalecer a voz e a participação das mulheres nas decisões sobre água, saneamento e higiene (WASH), garantindo que seus direitos, recomendações e conhecimentos sejam incorporados às políticas públicas.
“Durante esse tempo no projeto, aprendi a valorizar a importância da água, do saneamento e até como separar o lixo corretamente. Está sendo uma evolução muito grande para nós”, conta Claudiane Maria da Silva, moradora da Charneca e liderança comunitária. “Já estamos organizando um abaixo-assinado para reivindicar a limpeza da caixa d’água. O projeto leva informação para quem nunca teve acesso, e isso está transformando o bairro.”
A governança da água, o conjunto de instituições, normas e processos que determinam como o recurso é gerido, é um desafio em todo o país. Relatório da ONU e da UN Water mostra que, quando as mulheres participam do planejamento e da implementação de projetos de água, a eficácia das soluções pode ser até sete vezes maior. No entanto, elas continuam sub-representadas: no Conselho Nacional de Recursos Hídricos, apenas 28% dos membros são mulheres, e o Brasil obteve a classificação mais baixa em equidade de gênero entre 22 países latino-americanos.
“O projeto está contribuindo demais para a transformação do nosso território. A gente não sabia quase nada sobre a água que usamos, e agora entendemos a importância de cuidar dela e do meio ambiente”, relata Nelsina Maria da Silva, do Córrego do Morcego.
No Água Delas, 66 mulheres participam de treinamentos, oficinas e atividades práticas, como a criação de uma ferramenta de diagnóstico comunitário com perspectiva de gênero. O projeto também realiza rodas de diálogo e ações porta a porta, fortalecendo lideranças e criando pontes com gestores públicos. As recomendações elaboradas já estão sendo levadas às instâncias municipais e estaduais.
“Se cada mulher colocar em prática o que a gente aprende, a qualidade da água vai melhorar muito”, afirma Marta Luiza da Silva, também moradora da Charneca.
A iniciativa contribui diretamente para os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da ONU, especialmente o ODS 5 (Igualdade de Gênero), o ODS 6 (Água Limpa e Saneamento) e o ODS 17 (Parcerias e Meios de Implementação). É um exemplo de como a articulação entre comunidades, organizações da sociedade civil e apoio internacional pode gerar impacto local e inspirar políticas mais inclusivas.
Para Dawn Fleming, responsável pelos programas da Waterlution no Brasil, o recado é claro: “Quando as mulheres têm voz, toda a comunidade ganha. Governança da água com participação real feminina é um caminho para combater desigualdades, fortalecer comunidades e garantir que ninguém fique para trás.”
O futuro da água e de muitas comunidades pode muito bem depender disso.