
Em muitos momentos da história e talvez ainda mais na sociedade contemporânea o casamento tem sido tratado como um acordo tácito de conveniências. Duas pessoas se unem não apenas pelo afeto, mas por uma soma de fatores que, à primeira vista, parecem suficientes para sustentar uma vida a dois. Beleza, atração sexual, estabilidade financeira, status social, poder, conforto, medo da solidão, pressão familiar, expectativas culturais, projetos profissionais ou até o desejo de ascensão social compõem, muitas vezes, a base inicial de inúmeras uniões.
Nada disso, isoladamente, é ilegítimo. A beleza encanta, o sexo aproxima, o dinheiro oferece segurança, o poder seduz, a admiração intelectual conecta, a parceria traz estabilidade. O problema surge quando o casamento se estrutura exclusivamente sobre esses pilares. O tempo, implacável e pedagógico, desgasta a aparência, altera o desejo, redefine o sucesso financeiro, redistribui poder e revela fragilidades que não cabiam no contrato inicial.
Quando a relação é sustentada apenas por interesses materiais ou emocionais transitórios, o convívio tende a se tornar conflituoso. Isso ocorre porque interesses mudam, expectativas se frustram e as pessoas evoluem, nem sempre na mesma direção. O que antes unia passa a cobrar. O que seduzia passa a exigir. O que encantava passa a faltar. Nesse cenário, o casamento deixa de ser abrigo e se transforma em campo de disputa, ressentimento e cobranças silenciosas. Não por acaso, muitas dessas uniões chegam ao fim, não por falta de convivência, mas por ausência de sentido.
O verdadeiro divisor de águas em um relacionamento não é a ausência de dificuldades, mas a presença do amor. Amor não como ideal romântico superficial, mas como escolha consciente, madura e diária. Amor que sabe renunciar, perdoar, ouvir, respeitar e permanecer.
Amor que não se limita ao que o outro oferece, mas se compromete com o que o outro é, inclusive em suas imperfeições.
Quando o amor é inserido como fundamento, o casamento deixa de ser um contrato de interesses e passa a ser uma aliança de propósitos. O casal aprende que não caminha para competir, mas para construir. Que não vive para exigir, mas para cuidar. Que não se une apenas para usufruir, mas para servir, crescer e amadurecer juntos. O amor transforma conflitos em aprendizado e crises em oportunidades de aprofundamento.
Nesse mesmo sentido, compreender Deus como uma força viva de paz e harmonia dentro do lar amplia ainda mais o significado da união. Não se trata apenas de religiosidade formal, mas do entendimento de Deus como fonte de amor, equilíbrio, humildade e reconciliação. Quando Deus é convidado a habitar a relação, Ele suaviza palavras, acalma impulsos, inspira paciência e fortalece vínculos. Onde o ego divide, Deus reconcilia. Onde o orgulho afasta, Deus aproxima. Onde o desgaste ameaça, Deus renova.
Um lar sustentado pelo amor e pela espiritualidade deixa de ser apenas uma casa compartilhada e se aproxima da ideia de um pequeno paraíso possível, não perfeito, mas pacificado. Um espaço onde há diálogo, respeito, perdão e cuidado mútuo. Onde o “nós” se sobrepõe ao “eu” e onde a vida, apesar de dura, se torna mais leve quando vivida a dois.
Ao refletir sobre o casamento, talvez a pergunta mais honesta não seja se ele é um contrato de interesses, mas qual interesse está no centro dessa união. Se for apenas o que se pode ganhar, o risco da perda é constante. Se for o amor, iluminado por valores espirituais e pela presença de Deus , a relação pode atravessar o tempo, as crises e as mudanças, mantendo viva a essência que realmente sustenta uma vida compartilhada.
Jairo Lima é artista plástico, poeta e escritor



