
Em ano eleitoral, a política deixa de ser apenas gestão e passa a ser, sobretudo, narrativa. Não por acaso, o governo federal resolveu colocar no centro do debate nacional a proposta de mudança da escala de trabalho 6×1, vendida como avanço social, modernização das relações trabalhistas e gesto de sensibilidade com o trabalhador brasileiro. A pauta tem apelo, conversa diretamente com a base popular e gera engajamento imediato. Mas o timing da proposta revela mais do que boa intenção: revela estratégia.
O Palácio do Planalto sabe que entra em 2026 com a imagem desgastada. O terceiro mandato do presidente Lula acumula denúncias, escândalos e crises sucessivas, que corroem o discurso histórico de defensor da ética e da justiça social. Diante desse cenário, pautar um tema popular funciona como tentativa de limpar a imagem, mudar o foco do debate público e criar uma agenda positiva capaz de disputar corações e mentes do eleitorado.
A discussão sobre o fim da escala 6×1 não nasce agora. Ela sempre esteve presente em setores sindicais e acadêmicos, mas nunca foi tratada como prioridade absoluta por governos anteriores, inclusive pelos próprios governos petistas. O que mudou foi o contexto político. Com popularidade oscilando, críticas crescendo e uma oposição cada vez mais organizada, o governo aposta numa pauta de fácil comunicação para contrapor o tsunami de denúncias que envolve sua gestão.
E os escândalos não são poucos. O caso das fraudes no INSS, que atingiram aposentados e pensionistas, expôs fragilidades graves na máquina pública. Mais do que isso, o episódio ganhou contornos ainda mais delicados quando surgiram conexões envolvendo nomes ligados ao entorno familiar do presidente, como seu irmão e seu filho, ampliando o desgaste político e a percepção de aparelhamento e tolerância com irregularidades. Mesmo com tentativas de minimizar o impacto, o estrago à imagem do governo já estava feito.
Some-se a isso o rumoroso caso do Banco Master, tratado nos bastidores de Brasília como um escândalo de potencial explosivo, capaz de “derrubar a República”, segundo avaliações reservadas de parlamentares. A forma como o tema vem sendo conduzido, com silêncio estratégico, decisões técnicas pouco transparentes e a sensação de que tanto o governo quanto setores do STF atuam para esfriar o debate, reforça a desconfiança de parte da sociedade. Quando instituições que deveriam fiscalizar passam a ser vistas como escudos políticos, a credibilidade do sistema entra em xeque.
É nesse ambiente que surge a escala 6×1 como boia de salvação discursiva. O governo tenta deslocar a atenção do noticiário, trocar investigações complexas por um debate emocionalmente mais favorável. Enquanto se discute jornada de trabalho, fala-se menos de corrupção, de relações promíscuas entre poder político e instituições financeiras, de omissões e de responsabilidades.
Nada disso significa que o debate sobre a escala 6×1 seja ilegítimo. Ao contrário: trata-se de um tema sério, que merece estudo técnico, diálogo com empregadores, trabalhadores e impacto real na economia. O problema está no uso eleitoral e populista da pauta. Lançada sem clareza sobre viabilidade, custos e consequências, ela se transforma mais em slogan do que em política pública estruturada.
O risco para o governo é evidente. Ao apostar todas as fichas em uma agenda social para abafar escândalos, Lula corre o perigo de reforçar a percepção de que governa olhando mais para o marketing político do que para a transparência e a responsabilidade institucional. O eleitor de 2026 não é o mesmo de décadas atrás. Está mais informado, mais desconfiado e menos tolerante com discursos que não se sustentam na prática.
No fim das contas, a escala 6×1 pode até render palanque e aplausos momentâneos, mas dificilmente apagará o rastro de denúncias que acompanha o terceiro mandato. Pautas sociais não substituem ética, e discursos populares não anulam fatos. A tentativa de usar uma bandeira trabalhista como cortina de fumaça pode funcionar no curto prazo, mas tende a cobrar um preço alto quando a realidade bate à porta das urnas.



