
Muitos atravessam a vida sem, de fato, vivê-la. Acordam, trabalham, comem, dormem e repetem o mesmo ciclo dia após dia. Os anos passam, os cabelos embranquecem, o corpo cansa — e, quando percebem, o tempo já fez quase todo o seu caminho.
Não faltou fôlego, faltou sentido. Não faltaram dias, faltou vida.
Existir é cumprir a rotina básica da sobrevivência. É responder às obrigações, pagar contas, manter-se funcional. É viver no automático, como quem apenas ocupa espaço no mundo. A existência é passiva: reage ao que acontece, aceita o que vem, adapta-se sem questionar. Não exige profundidade, apenas continuidade.
Viver, por outro lado, é um ato consciente. É escolher não passar pela Terra como espectador, mas como protagonista da própria história. Viver é sentir com intensidade, amar com verdade, errar, aprender, criar memórias e deixar marcas que o tempo não apaga. É acordar todos os dias com a pergunta essencial: para quê?
Quem vive de verdade não se limita ao que faz; compreende quem é. Reconhece que não é apenas corpo que se move, mas alma vivente, dotada de dons, talentos, inteligência, raciocínio e consciência. Há algo sagrado em cada ser humano — uma centelha criadora que pede expressão, propósito e direção. Ignorar isso é desperdiçar a própria essência.
No sentido cristão, viver é entender que a vida não é um acidente, mas um dom. Que a família é mais do que convivência: é escola de amor, perdão e responsabilidade. Que o trabalho não é castigo, mas instrumento de construção. Que cada talento recebido traz consigo um chamado. Não fomos criados apenas para sobreviver, mas para frutificar.
Existir é deixar os dias passarem. Viver é dar nome aos dias. Existir é acumular horas.
Viver é preencher o tempo com significado. Enquanto quem apenas existe pergunta “o que eu ganho?”, quem vive pergunta “o que eu construo?”. Enquanto um busca conforto, o outro busca sentido. Enquanto um teme a mudança, o outro a utiliza como crescimento.
A vida ativa e plena não é ausência de dor, mas presença de propósito. Não é falta de problemas, mas clareza de direção. É saber por que se levanta, por quem luta, pelo que vale a pena permanecer e até sofrer. É compreender que o legado não se mede apenas pelo que se deixa materialmente, mas pelo amor semeado, pelos valores transmitidos e pelas consciências despertadas.
A passagem pela Terra é curta. Muito mais curta do que gostamos de admitir. O tempo não negocia, não espera e não devolve. Cada dia desperdiçado na superficialidade é uma oportunidade perdida de viver algo que realmente importa. No fim, não seremos lembrados pela rotina que cumprimos, mas pela vida que geramos ao nosso redor.
A grande pergunta não é se estamos vivos biologicamente, mas se estamos vivos por dentro. Porque existir é inevitável — viver é escolha.
E essa escolha se renova todos os dias, enquanto ainda há tempo, enquanto ainda há fôlego, enquanto ainda é possível transformar a simples passagem em uma história que valha a pena ser lembrada.
Que não passemos pela vida como quem apenas esteve, mas como quem verdadeiramente viveu.
Jairo Lima é escritor, poeta e artista plástico




