
Existe um hábito antigo e confortável que atravessa gerações: culpar o “diabo” por aquilo que nasce, cresce e se repete dentro de nós. Sempre que erramos, caímos ou insistimos nos mesmos desvios, surge essa explicação pronta, quase automática, que parece aliviar a consciência e preservar a autoimagem.
No fundo, porém, esse recurso não passa de um desculpismo grosseiro, uma tentativa infantil de terceirizar responsabilidades que são exclusivamente nossas. Ao apontar um culpado externo, evitamos o confronto mais difícil, que é olhar para dentro e reconhecer nossas fraquezas, nossa falta de vigilância e nossa negligência com a própria vida espiritual e moral.
Agimos como se pedir ajuda a Deus fosse algo distante ou inacessível, como se a oração fosse apenas um ritual vazio e não um diálogo vivo, como se o arrependimento fosse humilhação e não libertação. Também agimos como se o esforço pessoal fosse inútil, como se melhorar dependesse apenas de forças externas e não de decisões diárias, conscientes e perseverantes.
Esquecemos que a graça de Deus não elimina a responsabilidade humana, mas a fortalece, dando-nos condições reais de escolher melhor, vigiar pensamentos, cortar hábitos nocivos, evitar ambientes que nos derrubam e dizer não ao que nos afasta do bem.
A invigilância raramente acontece de forma repentina; ela nasce aos poucos, na oração abandonada, na fé transformada em formalidade, no coração que se acomoda, no pequeno erro tolerado e na falsa segurança de achar que “comigo não acontece”. E quando a consequência chega, em vez de assumir o caminho percorrido, preferimos transferir a culpa, como se nossa liberdade não existisse ou como se sempre houvesse um responsável externo pelos nossos desvios.
O mal pode até sugerir, provocar ou seduzir, mas não obriga; quem decide, quem escolhe e quem abre a porta somos nós. Negar isso é escolher permanecer na imaturidade espiritual, vivendo como almas infantis que sempre precisam de um culpado para justificar suas próprias falhas. A verdadeira maturidade começa quando reconhecemos, sem teatro e sem fuga, que erramos porque escolhemos mal, que nos afastamos porque permitimos e que só há mudança quando assumimos essa verdade com honestidade.
O que fazemos, o que decidimos e o que escolhemos constrói o rumo da nossa vida. Pensar o contrário é abdicar da consciência e da liberdade que nos foram dadas.
O “diabo” pode até sussurrar, mas a assinatura final é sempre nossa e exatamente por isso existe esperança: se fomos nós que escolhemos cair, também somos nós que podemos escolher levantar, vigiar, pedir ajuda a Deus e caminhar com mais responsabilidade, maturidade e verdade.
Jairo Lima é artista plástico, poeta e escritor




