
Há uma pergunta que atravessa gerações e, em momentos de crise ou acomodação, volta com força renovada: “o que eu tenho a ver com isso?” Ela costuma surgir quando o assunto é política, decisões coletivas, problemas sociais ou rumos do país. Aparentemente inocente, essa pergunta carrega uma armadilha perigosa: a ideia de que é possível viver à margem da sociedade, como se nossas escolhas ou omissões não tivessem consequências.
O fato é simples e inescapável: todos nós temos tudo a ver com isso. Viver em sociedade implica responsabilidade. Cada direito usufruído carrega um dever correspondente. Quando abrimos mão de participar, de opinar, de acompanhar e de cobrar, alguém ocupará esse espaço por nós. E quase sempre o fará segundo interesses próprios, não necessariamente alinhados ao bem comum. Deixar que outros decidam o nosso destino costuma sair caro, caro para nossas famílias, para nossa comunidade e para as próximas gerações.
A cidadania não se limita ao voto, mas o inclui. Ela se expressa nas pequenas atitudes diárias, no respeito às leis, na defesa do que é justo, no cuidado com o espaço público, na solidariedade e, sobretudo, na consciência de que nossas ações têm impacto coletivo. Somos seres sociáveis: o que afeta o outro, cedo ou tarde, nos alcança. A desigualdade ignorada hoje se transforma em violência amanhã; a corrupção tolerada agora cobra seu preço em serviços precários, oportunidades negadas e confiança social destruída.
Nesse sentido, é impossível dissociar fé, ética e responsabilidade social. Jesus Cristo, ao ser questionado sobre impostos e autoridade, afirmou de forma clara e profunda: “Dai, pois, a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus.” (Jesus Cristo – Evangelho de Mateus 22:21). Longe de ser um convite à indiferença, essa frase aponta para a maturidade da responsabilidade humana. Há deveres espirituais, mas há também deveres civis. Cuidar da família, da cidade e da sociedade é parte concreta dessa responsabilidade. Fugir dela não é neutralidade; é omissão.
Essa compreensão é sintetizada de maneira brilhante pelo filósofo e educador brasileiro Mario Sergio Cortella, quando afirma, na íntegra: “Muita gente acha que política é uma coisa e cidadania é outra, como garfo e faca, e não é. Política e cidadania significam a mesma coisa.” Cortella nos lembra que política não se restringe a partidos ou cargos eletivos. Política é a organização da vida em comum. É o modo como decidimos prioridades, distribuímos recursos e definimos regras de convivência. Quando nos afastamos da política, não deixamos de ser afetados por ela; apenas perdemos a chance de influenciá-la.
Portanto, perguntar “o que eu tenho a ver com isso?” talvez seja o primeiro passo para uma resposta mais honesta: temos tudo a ver. A democracia, a justiça social e a dignidade humana não sobrevivem da indiferença. Elas exigem participação, consciência e coragem. Assumir o papel de cidadão não é um favor à sociedade; é um compromisso com a própria vida, com quem amamos e com o futuro que ajudamos, todos os dias, a construir.
Jairo Lima é escritor, poeta e artista plástico




