
A governadora de Pernambuco, Raquel Lyra, decidiu subir a rampa do Planalto não para anunciar investimentos ou destravar obras, mas para reclamar. Em Brasília, procurou o ministro da Casa Civil, Rui Costa, a quem considera aliado no governo Lula, para relatar o que chamou de “perseguição política” contra sua gestão. O motivo do incômodo: a informação de que o Ministério da Saúde pretende realizar uma inspeção em um hospital de Garanhuns que, embora privado, presta serviços ao SUS e tem como sócio o marido da vice-governadora, Priscila Krause.
A reação da governadora levanta uma questão central para a vida pública: desde quando fiscalização virou perseguição? Quando se trata de recursos públicos e serviços prestados ao Sistema Único de Saúde, a regra deveria ser simples e universal: transparência total e fiscalização permanente. Não importa quem sejam os sócios, os sobrenomes envolvidos ou as alianças políticas do momento. Se há dinheiro público, há dever de controle.
O problema é que o discurso de Raquel Lyra soa seletivo. Muito seletivo. Nos bastidores da política pernambucana, circulam denúncias e relatos de que a governadora teria permitido, ou ao menos tolerado, o uso da Polícia Civil de Pernambuco em investigações consideradas irregulares contra seu principal adversário político, o prefeito do Recife, João Campos. São informações que ainda precisam ser devidamente apuradas, mas que já alimentam um debate legítimo sobre os limites do poder e o uso das instituições do Estado.
E é exatamente aí que mora a contradição. Pode investigar adversários, mas não pode ser fiscalizada? Pode acionar estruturas do Estado contra quem disputa o poder, mas considera “perseguição” quando órgãos federais anunciam uma inspeção técnica em uma unidade que atende ao SUS e envolve pessoas do seu círculo político mais próximo?
Ao buscar abrigo no Planalto, Raquel Lyra também expõe outra incoerência: a tentativa de se colocar como vítima de um governo federal do qual, quando lhe convém, busca proximidade e diálogo. Reclamar de “perseguição” ao mesmo tempo em que se recorre a aliados em Brasília revela menos um ataque institucional e mais um desconforto político diante da lupa.
Governar exige coerência. Quem ocupa o cargo máximo do Executivo estadual precisa compreender que fiscalização não é afronta, e investigação não pode ser instrumento de disputa política. O Estado não pode funcionar com dois pesos e duas medidas: um rigor implacável para adversários e indignação seletiva quando o controle se aproxima dos aliados.
No fim das contas, a pergunta que fica ecoando é simples e incômoda: se está tudo regular, por que tanto medo da fiscalização? Em democracia, quem governa deve prestar contas, e não escolher quando e sobre quem a lei pode ou não atuar.




