
Nos bastidores da montagem da chapa majoritária liderada por João Campos, a disputa pela vaga ao Senado virou mais do que uma equação eleitoral: tornou-se um teste de força, resistência e, sobretudo, de submissão política. No centro desse tabuleiro está Marília Arraes, nome que, ironicamente, lidera as pesquisas para o Senado, mas caminha para ser empurrada, mais uma vez, para um projeto que não traduz a sua real densidade eleitoral.
Marília está, claramente, entre a cruz e a espada. De um lado, carrega o peso de ser um dos nomes mais competitivos do campo progressista em Pernambuco, com recall eleitoral, voto consolidado e presença popular. De outro, enfrenta a lógica fria das alianças, onde números nem sempre valem mais do que conveniências partidárias, acordos de bastidor e compromissos assumidos longe do eleitor.
A leitura que circula nos corredores do poder é cristalina: apesar de liderar a corrida pelo Senado, Marília deverá ser deslocada para a disputa de deputada federal. Não por fraqueza eleitoral, mas exatamente pelo contrário. Seu capital político vira moeda de troca para fortalecer chapas proporcionais, garantir palanques aliados e acomodar interesses que pouco dialogam com a vontade popular.
A pergunta que se impõe é incômoda, porém necessária: até onde vão as alianças antes de se transformarem em anulações políticas?
E mais: até quando Marília Arraes aceitará ser peça de ajuste em projetos que não a colocam no centro das decisões?
Não é a primeira vez que Marília se submete a uma engenharia que promete unidade, mas entrega contenção. Já foi candidata majoritária quando interessava ao grupo, já foi escanteada quando passou a incomodar. Agora, novamente, vê sua viabilidade ser relativizada em nome de um “projeto maior”, expressão que, na prática, quase sempre significa preservar espaços de outros atores.
A estratégia pode até fazer sentido sob a ótica dos arquitetos da aliança, mas cobra um preço alto: o desgaste de lideranças que possuem voto, história e identidade própria. Transferir Marília para a proporcional não é apenas uma decisão tática; é um recado político. Um aviso de que, mesmo liderando pesquisas, há limites claros para quem não controla a caneta final.
Porque alianças sustentam projetos, mas abdicações sucessivas, cedo ou tarde, cobram seu preço, político, eleitoral e histórico.



