
Há uma frase que tem provocado debates, espanto e até indignação nas redes sociais: “Estamos felizes gastando a herança dos filhos”. À primeira vista, soa egoísta. Para alguns, quase uma afronta. No entanto, por trás dessa declaração existe um fenômeno crescente entre casais maduros que decidiram trocar o acúmulo de bens pela construção de memórias. É o chamado movimento SKI – Spending the Kids’ Inheritance — ou, em tradução livre, “gastando a herança dos filhos”. Mais do que uma escolha financeira, trata-se de uma filosofia de vida.
Casais como os australianos Leanne e Leon Ryland, que investiram cerca de 170 mil dólares australianos em viagens pelo mundo, ou o americano Chris Mott, que utilizou 250 mil dólares de uma herança para comprar um motorhome e cruzar os Estados Unidos com a esposa, tornaram-se símbolos dessa mudança de mentalidade. Eles venderam casas, reduziram pertences, abandonaram a ideia de deixar grandes patrimônios e decidiram viver a liberdade da estrada. Dormem sob céus diferentes, acordam em montanhas, praias ou desertos. Dizem-se “mais felizes do que nunca”. E talvez estejam.
Mas o debate não está apenas no direito de viajar ou gastar o que se construiu.
Ele toca numa questão mais profunda: qual é, afinal, a verdadeira herança que pais devem deixar aos filhos? Durante gerações, muitos acreditaram que a missão da vida adulta era acumular patrimônio para garantir segurança às futuras gerações. Trabalhar incansavelmente, abrir mão de prazeres simples, viver sob constante pressão financeira — tudo para deixar casas, terrenos, aplicações e contas robustas. O problema não está em querer cuidar dos filhos.
O erro está em transformar isso numa obsessão, como se o valor de uma vida fosse medido pelo saldo deixado no inventário.
A história tem mostrado que grandes heranças materiais nem sempre produzem grandes destinos. Em muitos casos, tornam-se fator de acomodação. Jovens que não precisam lutar para conquistar seu próprio espaço podem perder a chama da iniciativa, da criatividade, da superação. Em outros contextos, a herança transforma-se em campo de batalha: irmãos que deixam de se falar, disputas judiciais intermináveis, ressentimentos que atravessam gerações.
O que deveria ser bênção vira desunião. O que deveria simbolizar amor converte-se em divisão.
Naturalmente, é compreensível e até bonito que pais que possuem bens desejem repassá-los. Isso faz parte da continuidade familiar e da responsabilidade intergeracional. O ponto central, porém, é que essa não pode ser a única ou principal preocupação de uma vida. Há algo mais precioso do que imóveis e cifras: caráter, valores, fé, disciplina, honestidade, amor ao trabalho, respeito ao próximo. Essa é a herança que não se perde em crises econômicas, não se divide em cartório e não se corrói pelo tempo.
Quando um casal decide vender tudo e morar em um motorhome, muitas vezes não está apenas “torrando” dinheiro. Está dizendo: trabalhamos a vida inteira, agora queremos viver o que sempre adiamos. Queremos contemplar a criação, experimentar a simplicidade, reencontrar o sentido. Há algo profundamente espiritual nessa decisão. Ela nos lembra que a vida é transitória. Que não levamos conosco escrituras ou extratos bancários. Levamos experiências, vínculos, histórias compartilhadas.
Talvez o maior legado que pais possam oferecer seja o exemplo. Filhos que veem seus pais vivendo com propósito, alegria e equilíbrio aprendem que o dinheiro é meio, não fim. Aprendem que segurança não substitui significado. Aprendem que é preciso construir o próprio caminho. Um pai que ensina responsabilidade e uma mãe que transmite fé deixam um patrimônio invisível e eterno.
Há também uma dimensão libertadora nessa reflexão.
Quantas pessoas vivem presas ao medo de “não deixar o suficiente”? Quantas sacrificam saúde, tempo com a família e até sua paz interior em nome de um futuro que talvez nem vivam para ver? A espiritualidade nos convida a confiar mais e acumular menos. A Bíblia, por exemplo, lembra que onde está o tesouro, ali estará o coração. Se o tesouro é apenas material, o coração também se limita ao material. Se o tesouro é espiritual, o legado ultrapassa gerações.
“Estamos felizes gastando a herança dos filhos” pode não ser uma frase para todos. Cada família tem sua realidade, seus valores e seus contextos. Mas ela nos provoca a repensar prioridades. Talvez a questão não seja gastar ou guardar, mas equilibrar. Cuidar dos filhos sem transformá-los em projeto financeiro. Planejar o futuro sem abdicar do presente. Construir patrimônio sem esquecer de viver.
No fim das contas, a maior herança não é o que se deixa quando partimos, mas o que construímos enquanto estamos aqui. Amor vivido, caráter formado, fé transmitida e memórias compartilhadas valem mais do que qualquer escritura registrada em cartório. Se filhos receberem isso, ainda que não herdem grandes fortunas, terão recebido o essencial para edificar o próprio destino. E talvez, um dia, também possam dizer, não com egoísmo, mas com gratidão, que aprenderam a viver antes de apenas acumular.
Jairo Lima é gestor público, artista plástico, poeta e escritor



