
Vivemos um tempo em que a humanidade, mais uma vez, se vê diante de uma invenção que provoca fascínio e medo na mesma medida. A inteligência artificial é acusada de ser perigosa porque cria imagens hiper-realistas, vozes sintéticas indistinguíveis das humanas, vídeos que simulam acontecimentos que jamais existiram. Muitos apontam o dedo para a IA como se ela fosse uma fera solta, capaz de destruir reputações, comprometer inocentes, fabricar escândalos e incendiar a opinião pública com cenas cuidadosamente manipuladas. De fato, o potencial de gerar conteúdos superealistas é real e exige responsabilidade, ética e regulamentação. Mas talvez estejamos olhando apenas para a superfície do problema, como sempre fizemos quando uma nova tecnologia desafia nossas certezas.
A mesma ferramenta que pode produzir engodos também pode revelar enganos. A mesma inteligência que simula rostos e discursos pode ser treinada para detectar fraudes, identificar manipulações, cruzar dados, desmascarar montagens e apontar inconsistências invisíveis ao olhar distraído. Em um mundo saturado de informações, onde a política se alimenta de narrativas moldadas sob medida, onde mentiras são repetidas até parecerem verdades e onde emoções são manipuladas em escala industrial pelas redes sociais, talvez o maior risco não seja a inteligência artificial em si, mas a ingenuidade humana diante do ambiente virtual. A IA escancara uma realidade incômoda: nunca fomos tão vulneráveis à imagem, à retórica e ao espetáculo.
Ao nos confrontar com deepfakes, montagens quase perfeitas e discursos gerados por máquinas, a inteligência artificial nos obriga a desenvolver uma nova acuidade visual e cognitiva. Passamos a desconfiar mais, a checar fontes, a questionar o que vemos e ouvimos. Somos forçados a abandonar a postura passiva de consumidores de conteúdo e a assumir o papel de investigadores atentos. Nesse sentido, a IA não apenas cria ilusões; ela nos desafia a superá-las. Se antes acreditávamos cegamente em um vídeo, agora sabemos que a aparência não é garantia de autenticidade. A tecnologia que simula a realidade pode, paradoxalmente, educar-nos para distinguir melhor o real do fabricado.
Há também um paralelo inevitável com a política. Durante décadas, campanhas foram construídas sobre slogans vazios, edições estratégicas de imagens, manipulação emocional e narrativas cuidadosamente roteirizadas. A diferença é que, agora, o poder de produzir essas narrativas se democratizou. A IA expõe o quanto sempre estivemos sujeitos a construções artificiais. Talvez o desconforto atual não seja apenas com a máquina, mas com o espelho que ela nos oferece. Ao revelar que a realidade pode ser facilmente fabricada, ela nos obriga a reconhecer o quanto já éramos manipuláveis antes mesmo de sua existência.
Diante disso, cabe a pergunta provocativa: não teria a inteligência artificial também a função de nos tornar mais espertos? Menos ingênuos, menos manipulados, mais atentos às camadas invisíveis do discurso? A ameaça pode ser, ao mesmo tempo, um chamado ao amadurecimento coletivo. Se aprendermos a usar a IA como ferramenta de análise, verificação e educação digital, ela pode se transformar em aliada no combate às falácias, às mentiras e aos engodos que infestam o debate público. O que hoje chamamos de fera pode, em última instância, revelar-se uma fada transformadora de uma sociedade adormecida, despertando-a para a responsabilidade crítica, para a lucidez e para uma nova ética da percepção. Talvez o verdadeiro salto civilizatório não esteja na capacidade da máquina de criar mundos virtuais, mas na capacidade humana de evoluir junto com ela.
Jairo Lima é gestor público, poeta, escritor e artista plástico



