
A chegada de um novo ano sempre carrega um simbolismo poderoso. É como se o tempo, pedagógico e misericordioso, nos oferecesse mais uma chance de recomeçar. 2026 bate à porta não apenas como uma mudança no calendário, mas como um chamado silencioso à consciência. Um convite para perguntar, com honestidade: como tenho vivido? Para onde estou indo? O que, de fato, estou cultivando dentro de mim?
Ao longo da história, apesar das diferenças culturais e doutrinárias, as grandes tradições espirituais convergem em um ponto essencial: não somos matéria que pensa, somos espírito que experiencia a matéria. O corpo é transitório, o tempo é limitado e a vida é uma escola. Quando esquecemos essa verdade, passamos a viver como se o provisório fosse definitivo e como se o acúmulo fosse sinônimo de realização.
É justamente nesse esquecimento que nasce a avidez pelas coisas materiais. Não o cuidado legítimo com a sobrevivência ou o conforto digno, mas a ilusão perigosa de que TER mais nos fará SER mais. Assim, encerramos anos acumulando bens, metas externas, reconhecimentos e expectativas, enquanto adiamos, mais uma vez, o encontro com nossa própria essência.
Jesus, com a simplicidade que atravessa séculos, advertiu:
“Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro e perder a sua alma?”
E também ensinou:
“Onde está o teu tesouro, aí estará também o teu coração.”
Às vésperas de 2026, essas palavras ecoam como um exame de consciência. Onde esteve nosso tesouro em 2025? No que investimos nossas forças, nossas emoções, nossas melhores horas? Se formos sinceros, talvez percebamos que estamos gastando o tempo da vida tentando resolver problemas espirituais com soluções exclusivamente materiais.
Não é coincidência que tantos iniciem um novo ano carregando cansaço, ansiedade e vazio. O corpo sente aquilo que a alma tenta dizer há muito tempo. Queremos saúde, mas resistimos à mudança interior. Queremos paz, mas alimentamos conflitos internos. Queremos felicidade, mas insistimos em caminhos que nos afastam de nós mesmos.
Erramos quando acreditamos que basta mudar o cenário externo para que tudo se resolva. Sem reforma moral, não há verdadeira renovação. Sem transformação interior, o ano muda, mas a vida permanece a mesma. O adoecimento, muitas vezes, não é castigo, mas aviso: algo precisa ser revisto na maneira como estamos vivendo, sentindo e amando.
O maior dos Mandamentos não foi dado como ideal abstrato, mas como fundamento para uma vida equilibrada:
amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo.
Amar a Deus é alinhar escolhas com valores mais elevados. Amar o próximo é exercitar empatia, respeito e perdão. E amar a si mesmo, de verdade, é assumir o compromisso corajoso com a própria evolução espiritual.
Quando compreendemos isso, o “ter” encontra seu lugar correto: instrumento, não finalidade. O sucesso deixa de ser medido pelo que se exibe e passa a ser avaliado pelo que se constrói internamente. O novo ano deixa de ser apenas uma promessa externa e se torna uma oportunidade real de amadurecimento do espírito.
Talvez o maior desperdício da vida não seja errar — porque errar ensina —, mas atravessar mais um ano sem refletir, repetindo padrões, adiando mudanças e confundindo conforto com felicidade. Estamos aqui para crescer por dentro, não apenas para acumular por fora.
Em 2026, mais do que listas de desejos, metas financeiras, megasena ou resoluções superficiais, talvez a pergunta mais importante seja: quem eu desejo me tornar?
Não o que quero ter, mas o que preciso transformar.
Não o que o mundo espera de mim, mas o que a minha consciência pede em silêncio.
Entre o TER e o SER, o novo ano nos oferece uma escolha.
Que saibamos escolher o caminho que permanece quando tudo o mais passa.
Que 2026 seja menos sobre possuir e mais sobre ser.
Menos sobre correr e mais sobre sentir.
Menos sobre aparência e mais sobre essência.
Jairo Lima é artista plástico, poeta e escritor



