
A queda de Nicolás Maduro representa muito mais do que o colapso de um governo. Marca o fim de um regime opressor, ditatorial e desumano, que humilhou seu povo, perseguiu opositores, destruiu instituições e empurrou milhões de venezuelanos para a fome, o exílio e a miséria. O chavismo, que prometeu justiça social e soberania popular, entregou autoritarismo, economia em ruínas e um Estado capturado por interesses políticos e militares.
O desfecho desse regime não ocorreu por vias democráticas. A intervenção direta dos Estados Unidos na Venezuela inaugura um novo e delicado capítulo na geopolítica das Américas. Trata-se de uma ação que, para muitos, simboliza libertação; para outros, uma violação grave da soberania nacional. Mas, goste-se ou não do método, o fato concreto é que o regime caiu, e com ele ruiu um dos últimos pilares do socialismo bolivariano no continente.
A pergunta que se impõe agora é simples e inquietante: a Venezuela foi um caso isolado ou o primeiro de uma nova estratégia americana?
A ação dos EUA sinaliza que Washington voltou a agir de forma dura quando enxerga ameaças políticas, econômicas ou estratégicas em seu entorno imediato. Petróleo, influência regional e contenção de regimes hostis seguem sendo variáveis centrais.
No curto prazo, os Estados Unidos devem exercer forte influência sobre a reconstrução institucional e econômica da Venezuela. No médio prazo, a mensagem é clara para o continente: regimes autoritários, especialmente aqueles que flertam com alinhamentos antiamericanos, passam a operar sob risco permanente. Isso altera completamente o cálculo político de governos ideologicamente alinhados à esquerda radical.
A queda de Maduro ocorre num momento emblemático. A América Latina vive uma guinada ideológica evidente. Hoje, a maioria dos países do continente é governada por lideranças de direita ou centro-direita. Brasil, Uruguai e Colômbia tornaram-se exceções, e mesmo essas exceções mostram sinais de desgaste.
Na Colômbia, o atual governo enfrenta queda de popularidade e tudo indica que as próximas eleições podem recolocar a direita no poder. O eleitor latino-americano, após décadas de promessas messiânicas da esquerda, parece ter chegado a uma conclusão pragmática: retórica não enche prato, ideologia não paga contas.
O saldo de muitos governos progressistas foi pesado:
— estatais quebradas,
— dívidas públicas explosivas,
— insegurança jurídica,
— inflação, desemprego e êxodo populacional.
A experiência venezuelana funciona como um alerta máximo. Um exemplo extremo do que acontece quando o Estado se fecha, persegue a oposição e transforma o discurso social em instrumento de poder.
O Brasil diante da onda conservadora
O Brasil entra em rota eleitoral com eleições marcadas para outubro de 2026, e o que acontece fora de nossas fronteiras influencia, sim, o comportamento do eleitor. A política não vive em bolhas.
A queda de Maduro reforça no imaginário popular brasileiro três sentimentos centrais:
- Rejeição a regimes autoritários, mesmo quando travestidos de discurso social.
- Medo do colapso econômico, após ver um país rico em recursos naturais ser destruído por má gestão ideológica.
- Cansaço da polarização estéril, que promete redenção histórica, mas entrega crise permanente.
A chamada “onda conservadora” que avança pelo continente pode fortalecer no Brasil um eleitorado mais atento à economia, à estabilidade institucional e à responsabilidade fiscal. Não se trata apenas de direita versus esquerda, mas de resultado versus fracasso.
A esquerda brasileira, historicamente complacente com o chavismo e outros regimes similares, terá dificuldades para explicar sua tolerância passada. Já a direita tentará associar a experiência venezuelana aos riscos de modelos intervencionistas e populistas.
O fim de Maduro não é apenas o fim de um homem ou de um governo. É o colapso simbólico de um projeto político que seduziu parte da América Latina e fracassou de forma retumbante. A intervenção americana reabre debates sobre soberania, mas também escancara os limites da tolerância internacional com ditaduras ideológicas.
A América Latina muda. O eleitor mudou. E o Brasil, queira ou não, está inserido nesse novo contexto.
As eleições de 2026 não serão apenas uma disputa doméstica, serão também, um reflexo direto de uma região que decidiu não repetir os erros do passado.
Por: Uanderson Melo, jornalista, radialista e teólogo.



