
Este artigo é inspirado no meu cordel “O Homem da Estrada da Luz”, que nasce do desejo de compreender o tempo que vivemos e o papel que cada um de nós exerce na travessia da vida.
Não viemos ao mundo como turistas de passagem rápida, tampouco para assistir à existência pela janela. Viver é um chamado constante à consciência, à revisão de rotas e à ampliação do olhar. A vida nos exige presença. Exige que liguemos a Terra ao céu não por misticismo ingênuo, mas por responsabilidade espiritual: aquilo que pensamos, sentimos e fazemos ecoa no coletivo.
O futuro não se revela em cartas, previsões ou adivinhações. Ele se constrói à medida que avançamos, olhando para frente com a maturidade de quem aprendeu com o passado. O tempo, mesmo quando dói, é um grande professor. Comparar o ontem com o hoje revela que, apesar das crises, a humanidade desenvolveu algo essencial: consciência.
Há mais sensibilidade, mais espiritualidade e mais entendimento sobre a lei invisível que rege a vida, a lei do plantio e da colheita. Ela não falha, não discrimina e não se corrompe. Onde há injustiça e maldade, cedo ou tarde o desequilíbrio se manifesta. Onde há amor, responsabilidade e verdade, a vida floresce.
Vivemos um período em que o egoísmo já não se sustenta sem ser questionado. A sociedade sente o peso da indiferença, da ruptura dos laços humanos, da perda da irmandade. Mas, ao mesmo tempo, cresce uma força silenciosa que costura o que foi rasgado: a alteridade, o cuidado com o outro, a noção de que ninguém se salva sozinho.
Os avanços sociais são sinais claros desse movimento. Direitos das mulheres, proteção às crianças, às pessoas com deficiência, aos animais e ao meio ambiente deixaram de ser exceção para se tornarem pauta moral. Regimes autoritários já não encontram terreno fértil por muito tempo, porque a consciência coletiva resiste. A dignidade humana deixou de ser privilégio e passou a ser princípio.
Também aprendemos que fé e ciência não caminham em lados opostos. A medicina já reconhece o impacto do perdão, do pensamento e das emoções na saúde. O rancor adoece. O ódio corrói. O perdão alivia. O amor equilibra. Muitas das dores que carregamos são frutos das batalhas internas que insistimos em não encerrar.
Por isso, os verdadeiros heróis do nosso tempo não são os que dominam, mas os que servem. Jesus, Gandhi, Francisco de Assis, Madre Teresa de Calcutá — todos apontaram para o mesmo lugar: a transformação começa dentro. Nenhuma revolução externa sustenta-se sem uma revolução interior.
A vida é uma estrada de aprendizado contínuo. Cada existência é um degrau. Não há retrocesso real, apenas estágios diferentes de compreensão. Evoluir é inevitável, ainda que alguns resistam ao movimento.
A criação segue em direção à luz, porque essa é a sua origem.
No fim, resta uma verdade simples e profunda: ninguém carrega além daquilo que cultiva. Quem vive no amor, espalha amor. Quem vive no ressentimento, carrega dores. Culpar o mundo, o outro ou o destino é permanecer parado. Caminhar é assumir a própria responsabilidade pela estrada que se escolhe trilhar.
E a estrada da luz continua aberta para quem decide enxergá-la.
Jairo Lima é gestor público, poeta, escritor e artista plástico



