
A figura do influencer digital tornou-se um dos símbolos mais marcantes do nosso tempo. Trata-se de pessoas que, munidas basicamente de um celular, carisma e domínio das plataformas digitais, conseguem converter atenção em dinheiro, prestígio e poder social. Em muitos casos, esse fenômeno é legítimo e até inspirador, sobretudo quando representa uma ruptura com ciclos históricos de exclusão e permite que indivíduos oriundos da extrema pobreza alcancem renda, visibilidade e voz pública. Contudo, essa mesma dinâmica carrega riscos significativos, especialmente quando o principal capital do influencer passa a ser o número de seguidores e o engajamento, deslocando a ética para um plano secundário e transformando a performance em regra.
A internet criou uma nova forma de mobilidade social, muitas vezes chamada de “elevador social do algoritmo”. Diferentemente dos caminhos tradicionais, esse percurso não exige formação acadêmica, carreira consolidada ou validação institucional, mas sim a construção de narrativas envolventes, frequência constante de postagens, adesão emocional do público e capacidade de viralização.
O sucesso, quando ocorre, pode ser repentino e avassalador. Pessoas antes invisíveis passam a ter renda, reconhecimento e influência, porém sem, necessariamente, o preparo emocional, psicológico ou moral para lidar com fama acelerada, dinheiro e a sensação de impunidade social que, em alguns casos, acompanha grandes números nas redes.
O problema central não está na figura do influencer em si, mas no modelo de negócio que sustenta a economia da atenção. As plataformas digitais recompensam aquilo que mantém o usuário conectado, e nem sempre o que retém atenção é sinônimo de qualidade, verdade ou responsabilidade social.
Exageros, conflitos, choques emocionais, polêmicas constantes e provas de lealdade do público tendem a ser mais premiados do que conteúdos equilibrados. Nesse cenário, a exposição da vida íntima, das vulnerabilidades pessoais e até de terceiros passa a ser tratada como mercadoria. Quando seguidores se tornam o principal ativo, surge a tentação de relativizar limites morais em nome do alcance e da monetização.
É preciso reconhecer que há muitos influenciadores éticos, comprometidos com educação, cultura, ciência e causas sociais relevantes. Entretanto, coexistem nesse espaço indivíduos cujos valores morais são, no mínimo, questionáveis. O perigo reside justamente aí, pois seguidores funcionam como um capital simbólico poderoso, capaz de normalizar comportamentos, legitimar discursos e até estimular práticas nocivas. Casos envolvendo a adultização e a exposição indevida de crianças e adolescentes nas redes ilustram bem esse risco.
O debate recente em torno de influenciadores investigados por possíveis violações demonstra como a lógica do engajamento pode se sobrepor à proteção de sujeitos em desenvolvimento, ignorando que a internet não esquece e que danos emocionais e sociais podem se estender por toda a vida.
Outro aspecto preocupante é o estímulo intencional a vínculos afetivos unilaterais, conhecidos na psicologia social como relações parasociais. Influenciadores podem induzir sentimentos de amor platônico, intimidade ou dependência emocional em seguidores, fortalecendo laços que não são recíprocos e utilizando esse vínculo como estratégia para manter audiência, fidelidade e ganhos financeiros. Quando esse mecanismo é explorado sem responsabilidade, o público deixa de ser apenas espectador e passa a ser emocionalmente capturado.
Há ainda situações em que a violência ou a crueldade são narradas com naturalidade ou mesmo exibidas como sinal de franqueza, força ou autenticidade. Quando figuras públicas relatam ou banalizam atos violentos, parte da audiência pode ser dessensibilizada, passando a encarar a ausência de empatia como traço admirável. A violência, nesse contexto, deixa de ser um problema ético e passa a integrar o espetáculo, transformando-se em modelo simbólico de comportamento.
Sob a ótica da psicologia, diversos mecanismos ajudam a explicar por que essas dinâmicas funcionam. A necessidade humana de pertencimento leva seguidores a se organizarem em verdadeiras tribos digitais, nas quais criticar o influencer é percebido como atacar o grupo. A lógica da recompensa intermitente, semelhante à de jogos de azar, estimula comportamentos compulsivos tanto em criadores quanto em consumidores de conteúdo.
Soma-se a isso a comparação social constante e a idealização de vidas aparentemente perfeitas, que podem gerar frustração, ansiedade e dependência de validação externa. Certos traços de personalidade, como impulsividade, busca por excitação, necessidade intensa de admiração e baixa tolerância à crítica, tendem a performar bem nesse ambiente, sobretudo quando associados à polêmica e ao choque.
Diante desse cenário, a proteção passa, em primeiro lugar, pelo desenvolvimento da consciência crítica. É fundamental desconfiar de discursos que exigem lealdade cega, reconhecer os limites das relações parasociais e buscar informações fora da bolha algorítmica.
Carisma não deve ser confundido com caráter, nem popularidade com virtude. Para famílias, escolas e instituições, torna-se indispensável investir em educação midiática, estabelecer limites claros para a exposição de crianças, acompanhar o uso das redes de forma responsável e identificar sinais de alerta ligados à dependência emocional ou à manipulação online. No plano coletivo, cabe também à sociedade refletir sobre o próprio papel, evitando premiar com engajamento conteúdos nocivos e cobrando das plataformas maior responsabilidade na proteção de públicos vulneráveis.
Influenciadores digitais podem ser faróis ou tempestades. A mesma lógica que promove inclusão e dá voz a quem nunca teve espaço também pode colocar no centro do palco indivíduos despreparados ou moralmente comprometidos. O desafio contemporâneo não é demonizar a figura do influencer, mas fortalecer a educação crítica, o discernimento ético e o cuidado com os mais frágeis.
Afinal, a influência mais perigosa é aquela que nos faz baixar a guarda e aceitar como normal aquilo que, no fundo, deveria nos causar reflexão e cuidado.
Jairo Lima é artista plástico, poeta e escritor



