
Doze milhões de brasileiros acordaram com a conta zerada. Não foi uma metáfora. Foi literal. Contas congeladas, cartões suspensos, acesso bloqueado ao próprio dinheiro. A promessa sedutora do banco digital, “zero tarifas” e “crédito fácil”, virou, da noite para o dia, o maior colapso da história das fintechs brasileiras. Mas o drama vivido por milhões de clientes é apenas a face mais visível de um escândalo que expõe algo ainda mais grave: a engrenagem de autoproteção do sistema político-institucional brasileiro.
Em 21 de janeiro de 2026, o Banco Central decretou a liquidação extrajudicial do will bank. O rombo real, segundo os números que circulam nos bastidores e nas investigações, chega a R$ 56 bilhões. O Fundo Garantidor de Créditos (FGC) deverá desembolsar R$ 41 bilhões, o maior pagamento de sua história. Um impacto tão grande que especialistas já alertam: se outro banco médio quebrar, o sistema pode não aguentar.
Enquanto isso, o cidadão comum aprende, da forma mais dura possível, a lógica perversa do sistema financeiro. O dinheiro que estava na conta vira “crédito” a ser ressarcido com limite. Já a dívida do cartão, essa não some. Ela permanece, é transferida para o liquidante nomeado pelo governo e, se não for paga, segue para o Serasa. O banco quebra, mas o cliente continua devendo. Com juros.
O que poucos sabiam é que o will bank era apenas a vitrine. Por trás dele estava o Banco Master, que já havia sofrido intervenção do Banco Central em novembro de 2025, em meio a suspeitas de fraudes bilionárias. Com o colapso do Master, o will bank ficou “pendurado”, sem compradores. A Mastercard bloqueou os cartões por falta de pagamento, e o BC não teve alternativa senão decretar a liquidação total.
No centro desse furacão está o empresário Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master e do will bank. Enquanto milhões de clientes perdiam acesso ao próprio dinheiro, Vorcaro comprava uma mansão de cerca de R$ 200 milhões em Orlando, com direito a boliche privado e quadra de basquete. Paralelamente, seu nome aparecia associado a festas luxuosas em Brasília, com shows, jantares e a presença de figuras do alto escalão da República, incluindo ministros do STF e políticos influentes.
Segundo investigações da Polícia Federal, no âmbito da chamada Operação Compliance Zero, há indícios de créditos fantasmas, títulos sem lastro registrados como ativos bilionários e manipulação de balanços para enganar órgãos de fiscalização. Tudo isso ainda sob apuração, mas suficientemente grave para levantar uma pergunta incômoda: como um esquema dessa magnitude prosperou por tanto tempo?
É aqui que o silêncio institucional começa a gritar.
No Supremo Tribunal Federal, o caso tem como relator o ministro Dias Toffoli, que não se declarou suspeito, apesar de questionamentos públicos envolvendo a apuração de transações financeiras ligadas a pessoas próximas ao empresário investigado. Parlamentares apontam possível conflito de interesses e acusam o STF de não agir com a celeridade e a transparência esperadas em um escândalo dessa dimensão.
No Congresso, o cenário não é mais animador. A CPI do Banco Master, que poderia lançar luz sobre doações, lobbies e relações perigosas entre o sistema financeiro e o poder político, simplesmente não anda. A bancada do PT, orientada pela cúpula do partido, optou por não assinar o pedido de CPI. Oficialmente, silêncio. Na prática, blindagem.
Não é um gesto isolado. O PT, que hoje ocupa o centro do poder federal, age para evitar qualquer investigação que possa respingar no governo, em aliados estratégicos ou em instituições que lhe garantem sustentação. A CPI do Banco Master não ameaça apenas um banqueiro; ameaça expor as entranhas de um sistema onde festas compram influência, campanhas recebem recursos e órgãos de controle fecham os olhos.
O caso da Rioprevidência, que teria investido cerca de R$ 150 milhões no grupo e hoje veria restar apenas uma fração desse valor, adiciona um componente ainda mais dramático: aposentadorias de servidores públicos colocadas em risco. E o governo federal já avisou que não pretende cobrir o prejuízo.
O motivo? Talvez porque todos saibam quem esteve nas festas, quem recebeu doações, quem fez vista grossa e quem agora trabalha para empurrar o caso para debaixo do tapete.
O sistema está se defendendo. STF, Congresso e governo parecem agir em sincronia para conter danos. Mas a história mostra que, quando a pressão popular cresce e as provas se acumulam, alguém sempre acaba sendo sacrificado para preservar o todo.
Até lá, o resumo é cruel e direto:
– 12 milhões de brasileiros sem acesso ao próprio dinheiro;
– R$ 56 bilhões em prejuízo;
– um banqueiro ostentando mansões e luxo;
– investigações travadas;
– uma CPI sabotada;
– e a conta, como sempre, caindo no colo do contribuinte.
No Brasil, o escândalo não está apenas no rombo financeiro. Está na naturalidade com que o sistema se fecha para proteger a si mesmo.




