
Por: Uanderson Melo
A eleição interna do MDB de Pernambuco no último sábado (24) revelou muito mais do que um embate entre Raul Henry e Jarbas Filho. O verdadeiro vencedor do pleito foi o prefeito do Recife, João Campos (PSB), que demonstrou habilidade estratégica e força política ao garantir a reeleição de Henry à presidência estadual do partido. Com 65 votos contra 49, a vitória representa um baque para o Palácio do Campo das Princesas e uma afirmação do projeto político que Campos vem construindo com olhos voltados para 2026.
Desde o início da disputa, João Campos deixou clara sua preferência por Raul Henry. A aliança entre os dois não é nova, remonta à gestão de Eduardo Campos e tem se mantido sólida. O apoio de Campos se traduziu em articulação de bastidores, mobilização de lideranças e, sobretudo, no fortalecimento de uma narrativa: a de que o MDB está alinhado com o projeto da Frente Popular. Em seu discurso após a vitória, Henry não deixou dúvidas: “Temos uma aliança com o PSB, uma aliança de lealdade, de reciprocidade e de parceria. Quero dizer explicitamente o apoio a João Campos para governador de Pernambuco”.
Essa fala tem peso político. Pela primeira vez de forma tão clara, o MDB de Pernambuco assume publicamente seu apoio a uma candidatura de João Campos ao governo do estado, o que posiciona o prefeito recifense como o principal nome da oposição à governadora Raquel Lyra (PSDB) nas eleições de 2026.
Enquanto isso, a governadora amarga sua terceira tentativa frustrada de atrair o MDB para sua base. A aposta em Jarbas Filho e Fernando Dueire não teve força suficiente para desbancar a aliança construída por Campos. Vale lembrar que Raquel, mesmo tendo flertado com o MDB nacionalmente, preferiu não se filiar à legenda, o que agora soa como um erro estratégico diante do fortalecimento do partido no estado.
Mais do que uma derrota política, o resultado do MDB escancara o isolamento da governadora no tabuleiro eleitoral. Raquel tem enfrentado dificuldades para montar uma base consistente na Assembleia Legislativa e nas lideranças partidárias, e a perda do MDB apenas aprofunda esse desafio. Já João Campos, com MDB, PSB, PCdoB, PV e, possivelmente, partidos do campo progressista ao seu lado, vai consolidando um arco de alianças robusto.
A eleição do MDB também revela um ponto importante: o fim da hegemonia familiar dentro da sigla. Jarbas Vasconcelos, patriarca do partido em Pernambuco, não conseguiu emplacar o filho na liderança estadual. A ironia do destino é que o próprio Jarbas foi o responsável, ao lado de Eduardo Campos, pela aproximação do MDB com a Frente Popular. Hoje, essa história retorna pelas mãos de Raul Henry e João Campos.
Com o resultado, João Campos não apenas consolida sua liderança na capital, onde foi franco favorito à reeleição em 2024, como se posiciona como a principal força política em ascensão no estado. A vitória de Henry é mais um capítulo desse enredo. E quem duvidava que João fosse jogar em 2026, agora sabe: ele não só está no jogo, como está construindo o tabuleiro.
Uanderson Melo é jornalista, radialista e teólogo