
Se você encontrar esta carta entre um panetone esquecido e uma lista de metas que talvez não se cumpram, não se assuste. Não é um anúncio de partida, é só mais um ensaio. O fim do ano tem esse hábito curioso: ele não bate à porta, ele faz as contas. E, nelas, sempre aparece um pequeno decréscimo de tempo na nossa existência.
Todo dezembro é uma despedida educada. Não de nós, ainda, mas de um pedaço da vida que não volta. Um ano a menos no calendário, um pouco mais de história no corpo e na alma. E é nesse clima de balanço, fogos e retrospectivas que escrevo — com leveza, sem drama, e até com certo humor de quem finalmente entendeu o jogo.
Obrigado, Deus, por essa passagem. Passagem mesmo, com data de embarque ainda em aberto. Ninguém mora no tempo; a gente só atravessa.
Obrigado pelas amizades sinceras, aquelas que sobreviveram às viradas de ano, às mudanças de número no bolo e às versões minhas que nem eu aguentava mais. Vocês foram permanência em meio a tantos ciclos.
Peço desculpas pelos erros cometidos nos anos que ficaram para trás. Alguns ficaram presos em calendários antigos, outros insistiram em atravessar décadas comigo. Demorei a aprender, mas aprendi: carregar mágoa cansa mais do que trabalhar em dois turnos; orgulho envelhece antes do corpo; e vencer discussões não significa ganhar a vida.
Entre um réveillon e outro, caí. Em alguns anos, caí bastante. Mas aprendi a levantar melhor do que caía. Rompi com viciações silenciosas — de hábitos, de pensamentos, de gente, de ilusões. Descobri que paz não é ausência de barulho, é escolha. E que espalhar paz exige, antes, não estar em guerra consigo mesmo.
O fim de ano ensina sem pedir licença: cada abraço pode ser o último, cada conversa pode não se repetir, cada nome riscado da agenda pode virar saudade. Não é tristeza; é consciência. A cada dezembro, despedimo-nos de pessoas conhecidas, próximas ou distantes, e isso nos lembra que estamos todos na mesma fila — só não sabemos a ordem.
Se este texto parecer um epitáfio, que seja desses escritos ainda em vida. Um epitáfio provisório, revisável a cada ano. De alguém que acredita que sua morada definitiva não é neste mundo, mas que, enquanto está aqui, procura viver com mais verdade do que pressa.
Quando eu partir — porque eu partirei, como todos — levarei muitas saudades. Mas levarei também alegria. A alegria de saber que o tempo não foi só gasto, foi vivido. Que os anos não foram apenas subtraídos, mas transformados. E que os reencontros prometidos são maiores que qualquer despedida.
Por ora, sigo. Brindando mais um fim de ano não como quem perdeu tempo,mas como quem aprendeu a valorizar cada pedaço dele.
Jairo Lima é artista plástico, poeta e escritor



